Decisões financeiras, envelhecimento do cérebro e a previdência

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Decisões financeiras, o envelhecimento do cérebro e os planos de previdência complementar.
Calendar12 Setembro 2017

Com a troca dos planos de benefício definido pelos planos de contribuição definida, o bem estar dos aposentados passou a depender cada vez mais da habilidade deles tomarem decisões financeiras adequadas ao longo da aposentadoria.

Isso tem causado preocupação porque o declínio cognitivo que acompanha o envelhecimento pode comprometer a capacidade dos idosos de tomarem decisões, por conseguinte, ameaçando seu bem-estar financeiro.

“Os médicos precisam entender como o envelhecimento do cérebro, seja este sadio ou afetado por doenças neurológicas, impacta a tomada de decisões financeiras”, diz o Dr. Mark Lachs da Weill Cornell Medical College em Nova York. “Pessoas idosas podem não ter renda suficiente nem um horizonte de investimentos longo o bastante, que permitam recuperar perdas”, completa ele.

Uma perda considerável de recursos pode resultar em mudanças dramáticas na qualidade de vida desses idosos, sendo inconsistente com as escolhas que fizeram quando eram mais jovens.

O Dr. Lachs e seu colega Duke Han, do University Medical Center em Chicago, definiram a “vulnerabilidade financeira” associada à idade, como um padrão de comportamento arriscado relacionado a dinheiro, que coloca adultos mais velhos em perigo substancial.

Metade dos casos de abuso de idosos recai na exploração financeira. Os idosos ficam financeiramente vulneráveis por fatores que incluem declínio cognitivo ou emocional, deficiência visual, auditiva ou de mobilidade, progressão de doenças graves e isolamento social. Além disso, determinados medicamentos podem contribuir para o declínio cognitivo tornando mais difícil para adultos mais velhos gerenciarem seu dinheiro.

"No mundo ideal, faria sentido mensurar a vulnerabilidade financeira como parte da avaliação regular e periódica dos problemas mais comuns relacionados ao envelhecimento, como quedas, questões de mobilidade, dificuldades para dirigir automóveis ou nas atividades cotidianas, causados por mudanças cognitivas e que frequentemente afetam a vida e saúde dos adultos mais velhos”, comenta o Dr. Eric Widera, especialista em geriatria da Universidade da Califórnia em São Francisco.

Assim, quando a vulnerabilidade financeira fosse diagnosticada e enquanto os indivíduos ainda tivessem a capacidade de tomar decisões, eles poderiam pensar em coisas como planejamento financeiro antecipado e na indicação de alguém, por exemplo, um membro da família, para tomarem determinadas decisões em seu favor.

As pessoas também poderiam dar alguns passos na meia-idade para melhorar sua proficiência financeira, ficando de olho nos sinais antecipados de que precisam de ajuda para gerenciar seu dinheiro, na opinião do Dr. Leslie Kernisan, um geriatra americano que mantem um blog sobre o assunto (GeriatricsForCaregivers.net).

Um estudo intitulado “Como o envelhecimento afeta nossas decisões financeiras” (How does aging affect financial decisions) publicado em 2015 pelo Centro de Pesquisas da Aposentadoria (Center for Retirement Research) do Boston College mostrou alguns aspectos desse problema.

Um grupo de idosos, com idade média de 82 anos e razoavelmente bem-educados, foi acompanhando por alguns anos. O score obtido num conjunto de 19 testes aos quais os indivíduos eram submetidos anualmente possibilitou medir as alterações cognitivas experimentadas ao longo do tempo. Foram excluídos os indivíduos diagnosticados com sinais de demência ao responderem o primeiro questionário no inicio do estudo. O conjunto de testes foi usado para identificar o efeito ano a ano do declínio cognitivo no processo de tomada de decisões, avaliando três aspectos:

  1. Se o declínio cognitivo reduz a proficiência em assuntos financeiros e, consequentemente, a habilidade de tomar boas decisões;
  2. Se aqueles com declínio cognitivo perdem a confiança na sua própria capacidade de gerenciar seu dinheiro; e
  3. Se estes são mais propensos a pedir ajuda para gerenciar suas finanças.

O resultado pode ser visto na tabela abaixo:

 

O estudo confirmou que o declínio cognitivo, comum em indivíduos na faixa dos 80 anos de idade, está associado a um declínio significativo da proficiência financeira. Mostrou, porém, que grandes perdas na cognição e na proficiência financeira causam pouco efeito no nível de confiança que um indivíduo idoso possui em sua própria capacidade de tomar decisões financeiras e essencialmente, nenhum efeito na confiança que tem de poder gerenciar seu dinheiro apesar da diminuição de sua capacidade de tomar boas decisões financeiras.

Pessoas com declínio cognitivo são mais propensas a procurar ajuda para gerenciar suas finanças. Não obstante, conforme mostrou o estudo, mais da metade dos idosos com declínio significativo na cognição, busca ajuda apenas do cônjuge e de ninguém mais.

Dada a crescente dependência dos aposentados nos planos do tipo contribuição definida, a diminuição da cognição vai, provavelmente, causar um efeito adverso significativamente maior no bem estar dos idosos.

Fico imaginando um idoso tendo que avaliar qual percentual do saldo remanescente quer receber de renda em determinado ano. Ou então, tendo que decidir se muda o saldo para outro perfil de investimentos dentre os vários disponíveis. Ou ainda, se vai retirar um montante do saldo acumulado e receber na forma de pagamento único em dado momento ao longo da aposentadoria. Os desenhos dos planos de previdência complementar, permitem tudo isso e mais um pouco....

Algo preocupante se considerarmos que mais da metade daqueles experimentando um declínio cognitivo significativo retém a responsabilidade primária de gerenciar suas finanças.

Há solução? Sim, existem inúmeras medidas que podem ajudar. Os desenhos dos planos de contribuição definida, por exemplo, podem incorporar estratégias para ajudar os aposentados nas idades mais avançadas. Se quiser saber mais, me chame para um café que eu te conto.

Abraço forte,

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Fonte: Adaptado do artigo “Aging brain influences financial decision-making”, publicado pela Thonsom Reuters e na pesquisa “How does aging affect financial decison making?” de autoria de Keith Jacks Gamble, Patricia A. Boyle, Lei Yu e David A. Benneti publicado pelo Center for Retirement Research do Boston College.