Seleção de investimentos

Seleção de investimentos em momento crise: problema ou solução?

Independentemente do veículo financeiro que viabiliza o programa de previdência de uma empresa - Entidade Aberta (Plano Gerador de Benefícios Livre – PGBL) ou Entidade Fechada (Fundos de Pensão) -, a opção dada ao participante para selecionar a forma com que os seus investimentos serão aplicados no mercado financeiro é cada vez mais comum.

Usualmente, o veículo financeiro oferece um modelo simples, no qual o participante opta por três fundos de investimentos - Conservador, Moderado e Agressivo - e seleciona aquele que recepcionará apenas os recursos que o mesmo tenha aportado. O saldo das contribuições da empresa costuma ser investido com base na política definida pela própria empresa, que seleciona o fundo mais alinhado aos objetivos de RH.

Até aí, não temos nenhuma grande novidade. Com a maior divulgação e melhor entendimento do conceito de previdência complementar pela sociedade brasileira, o multiportifólio é algo que não causa grandes surpresas aos empregados.

Surge, então, a atual crise econômica. Mesmo com consistentes sinais de melhora no horizonte mundial, esta crise abalou fortemente a credibilidade do mercado financeiro, quando importantes instituições faliram ou foram “estatizadas”.

No Brasil, o mercado financeiro mostrou maturidade, controle governamental e uma capacidade de absorção da crise muito positiva, não expondo os correntistas ou investidores aos graves problemas que ocorreram no exterior.

Por outro lado, quando olhamos o mercado de previdência complementar, os últimos anos vêm mostrando desafios interessantes em função da volatilidade dos resultados de nossos investimentos.

E os participantes dos planos de previdência corporativos? A maioria não demonstrou qualquer reação relacionada à crise econômica. Reflexo de um modelo de multiportifólio mais frágil do que parece. Até que ponto os empregados entendem os impactos da escolha de perfis diferenciados de investimentos? Até que ponto isto expõe as empresas a questionamentos ou riscos que ela não enxergava?

O multiportifólio é uma ferramenta totalmente integrada ao modelo de contribuição definida, que é o mais utilizado pelo mercado nos desenhos dos programas de previdência.

Conceitualmente, o plano de contribuição definida é aquele em que o participante assume a responsabilidade pessoal pelo acúmulo de seu patrimônio previdenciário.

A crise, porém, expõe alguns problemas que não foram totalmente percebidos pelas empresas. Um deles é que, normalmente, quando são desenhados os fundos de investimentos, os papéis que os compõem não levam em consideração nem a maturidade da população, nem a expectativa de pagamentos futuros de benefícios. Outro problema é que informações básicas não são o bastante para o participante fazer a correta seleção do fundo de investimentos adequado ao apetite ao risco de cada um. É fundamental, nesse caso, que a empresa invista de forma efetiva na educação financeira, pois a “memória inflacionária” ainda é presente em parte da população.

Outra variável importante que não foi totalmente avaliada pelos veículos financeiros e os gestores de recursos é a queda da taxa de juros real implicará em uma menor rentabilidade para os investimentos alocados em Renda Fixa. Isto resultará em uma busca por novas categorias de investimentos ou, simplesmente, uma migração dos investimentos para a Renda Variável? E, nesse contexto, como os veículos financeiros de previdência têm reagido?

Ainda de forma tímida. Em um momento de crise, convencer a empresa a investir pesadamente em comunicação ou educação financeira soa um pouco utópico.

Mas é importante reavaliar esta decisão. Em relação à previdência complementar, especialmente o multiportifólio, todo o investimento em comunicação que a empresa fizer certamente se “pagará” no futuro. A previdência complementar, juntamente com o plano de assistência médica, são os benefícios de maior visibilidade para os empregados.

Em um mercado financeiro concentrado em poucos gestores, poucas opções de investimentos e grande regulamentação por parte do governo, o participante fará conscientemente sua opção se dispuser de informação, conhecimento e ferramentas de forma independente.

Do contrário, o multiportifóilio passa a ser aquela característica do programa de previdência que faz com que o empregado pergunte ao vizinho: “o que você marcou nesta pergunta?”

Por Mauro Machado