Introdução


  • Os mercados de ações globais tiveram seu pior mês desde março de 2020. A tempestade perfeita formada pela contínua e alta inflação, pelo consequente e necessário aperto monetário dos Banco Centrais, principalmente o norte-americano, o impulso do crescimento econômico diminuindo em função desse aperto e as perspectivas de ganhos para as empresas se tornando mais desafiadoras contribuíram para o sentimento geral de aversão ao risco. Os ativos perderam terreno durante o mês, com o aumento da inflação e o aperto monetário tendo um impacto igualmente negativo sobre a renda fixa.

  • Mesmo os dados indicando que a economia global ainda manteve-se razoavelmente bem, dadas as circunstâncias, como o desemprego próximo aos níveis anteriores a 2020 (EUA e Reino Unido) e os PMI permanecendo em território de expansão nas principais regiões (com exceção da China), não foram suficientes para impedir a deflagração do movimento generalizado de sell-off , o que fez com que o S&P500 e o MSCI registrassem o pior período em mais de dois anos, só não pior do que o mês em que o medo da pandemia da Covid-19 assolou o mundo (-8,80% e -8,43%, respectivamente). 

  • Dessa vez os mercados de negócios no Brasil não saíram incólumes aos temores e consequentes quedas registradas ao redor do mundo. Além do fluxo de investimento estrangeiro ter sido negativo pela primeira vez no ano, a percepção de que a alta e disseminada inflação e a resposta dos Bancos Centrais poderiam levar os países desenvolvidos a uma recessão pesou no humor e tanto o Ibovespa quanto as estratégias de renda fixa prefixada registraram perdas no período (Ibovespa o pior mês de março de 2020, -10,10% e IRFM-M -0,12%).
Castelo
©Hunter Bliss

O Castelo de Lichtenstein, também conhecido como "Castelo do Conto de Fadas", localiza-se sobre um penhasco nas montanhas suábias (Schwäbische Alb em alemão) próximo a Honau, em Baden-Württemberg, na Alemanha. A primeira construção no local foi feita no século 12 e assim como vários castelos ao longo da história foi destruído várias vezes entre 1100 e 1390 devido a guerras, sendo que a cada destruição, as antigas ruínas formavam a construção de um novo castelo. A atual estrutura somente começou a tomar forma em 1837, quando o conde Wilhelm von Urach, um apaixonado colecionador de armas, armaduras e quadros, desejava um local para guardar as suas obras de arte e, evidentemente inspirado pelo romance "Lichtenstein" de Wilhelm Hauff, contratou o arquiteto Carl Alexander Heideloff para construir-lhe um castelo medieval, o qual foi concluído em 1842.

 

Temendo que as muralhas da economia global estivessem à beira da destruição, pelo menos parcial, e não mais devido as batalhas medievais, tampouco ao conflito entre Ucrânia e Rússia, mas sim à necessidade de políticas monetárias muito duras para conter a alta e disseminada inflação, que os mercados sucumbiram em abril em todo o mundo. Os investidores perceberam que a possibilidade de que a inflação fosse controlada por meio de aumentos comedidos das taxas de juros, o que não impactaria as bases da economia global, nada mais passava do que um “Conto de Fadas”, o que, diferentemente à positiva referência ao Castelo de Lichtenstein, indicavam que as avalições econômicas de até então guardavam pouca relação com a realidade. Com isso, a tempestade perfeita formada pela contínua e alta inflação, pelo consequente e necessário aperto monetário dos Banco Centrais, principalmente o norte-americano, e pela fraqueza pontual da economia chinesa devido aos severos lockdowns, contribuíram para o sentimento geral de aversão ao risco.


Grafico 1
Grafico 2

Mesmo em meio a tempestade, os dados da economia global continuaram mostrando resiliência, apesar de algumas pressões pontuais já apontarem para alguma fraqueza. Os PMI permaneceram em terreno de expansão, com exceção da China, enquanto o mercado de trabalho continuou a se expandir com as taxas de desempregos em vários países se aproximando ou mesmo ultrapassando os níveis pré pandemia. Mesmo o negativo PIB do primeiro trimestre nos EUA (-1,4%) pôde ser explicado exclusivamente pela negativa performance da balança comercial, enquanto o consumo das famílias e os investimentos continuaram fortes. No entanto, os maiores bloqueios que a China testemunhou desde 2020, com Xangai fechada por mais de um mês, não só fizeram com que as expectativas de crescimento daquele país diminuíssem consideravelmente, como também trouxe claros impactos nas cadeias de suprimentos globais, adicionando mais uma dúvida para a continuidade da dinâmica positiva da economia global.


Grafico 1
Grafico 2

E apesar da resiliência da economia global, pesou no mercado a indicação do FED por meio da fala de uma série de diretores e a avaliação de analistas que as altas nas taxas de juros precisariam ser aceleradas. Se por um lado um mercado de trabalho robusto como o norte-americano aumenta a renda disponível das famílias e suporta o crescimento econômico, por outro ele pode criar desequilíbrios, como o visto no gráfico acima e à esquerda, no qual é possível identificar que há mais vagas abertas nos EUA do que pessoas buscando emprego. O resultado disso é uma pressão de alta nos salários que por sua vez se refletem em alta nos preços dos produtos, criando um perigoso ciclo vicioso.  Além dessa e de outras pressões que têm caráter mais duradouro, as altas dos preços das commodities agrícolas e energéticas não ajudam em nada o quadro inflacionário, resultando em contínuos níveis recordes de índices de inflação ao consumidor (gráfico à direita). Assim, a avaliação que passou a prevalecer no mercado é que as possibilidades de controle da inflação com altas mais suaves das taxas de juros já não tinham conexão com a realidade e que os bancos centrais seriam muito mais agressivos nas elevações no futuro próximo. Importante pontuar que altas nas taxas de juros não são necessariamente ruins para a economia, ainda mais quando elas se encontram em terreno expansionista como em grande parte do mundo. Se elas são elevadas para níveis neutros, ou seja, aqueles que não ajudam, nem prejudicam a economia, as altas podem até ser benéficas, uma vez que corrigiriam alguns desequilíbrios pontuais da economia, como a inflação. No entanto, o que o mercado passou a entender é que para trazer a inflação para próximo da meta, os Bancos Centrais terão que elevar as taxas muito acima dos níveis neutros e o impacto disso na economia é, no mínimo, desconhecido (podendo claramente ser muito prejudicial).

 

Com isso, a aversão ao risco prevaleceu e um movimento de sell-off generalizado foi deflagrado e tomou conta dos mercados. O S&P500 e o MSCI registraram o pior período em mais de dois anos, só não pior do que o mês em que o medo da pandemia da Covid-19 assolou o mundo (-8,80% e -8,43%, respectivamente). Os ativos de renda fixa também foram impactados duramente, com os títulos do Tesouro norte-americano registrando o pior mês em décadas (as taxas dos títulos de 10 e 30 anos subiram, respectivamente, de 2,32% e 2,44% para 2,89% e 2,96%). 

 

Ponto de Vista Mercer, cenário internacional:

 

Não promovemos alterações em nossa visão de médio e longo prazos para o mercado internacional. No entanto, como temos alertado, nossa posição mais construtiva segue desafiada pelo aperto monetário ao redor do mundo, embora não pareça que a economia global entre em recessão em 2023.  Mantemos nossa sugestão de que não aconselhamos mudanças bruscas nos portfólios durante eventos como o que estamos passando, sendo importante a calma e a resiliência para enfrentar impactos desfavoráveis de curto prazo nos portfólios, nunca abrindo mão da diversificação.
 

No Brasil, dessa vez os mercados de negócios não saíram incólumes aos temores e consequentes quedas registradas ao redor do mundo. Além do fluxo de investimento estrangeiro ter sido negativo pela primeira vez no ano, a percepção de que a alta e disseminada inflação e a resposta dos Bancos Centrais poderiam levar os países desenvolvidos a uma recessão pesou nos humores, aumentaram a aversão ao risco e causaram perdas relevantes para os mercados de ações e renda fixa.
 

Do lado da economia real, o mês voltou a trazer bons dados do mercado de trabalho e surpresas positivas no fiscal. Segundo dados do Novo CAGED, após a criação de 329,4 mil vagas em fevereiro (dado revisado), houve geração líquida de 136,2 mil postos em março, resultado acima da expectativa da mediana de mercado (125 mil). Do mesmo modo, a PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2022 exibiu surpresas positivas ao reforçar a expansão da população ocupada e seus efeitos sobre a redução do desemprego (a taxa de desocupação do trimestre móvel até março atingiu 11,1%). Do lado fiscal, em fevereiro o setor público consolidado apresentou superávit primário de R$ 3,5 bilhões, desempenho bem superior ao registrado em fev/2021 (-R$ 11,8 bilhões), resultando no significativo superávit em 12 meses de R$ 123,4 bi (1,40% do PIB). Apesar dos melhores dados, o quadro fiscal ainda demanda cuidado, ainda mais se considerarmos a continuidade da trajetória de crescimento da conta de juros devido à Selic mais alta e pela possível futura dissipação dos impactos positivos da inflação sobre as contas públicas.
 

Mesmo com algumas notícias domésticas positivas, tendo como contrapontos negativos a contínua inflação pressionada e um ambiente político um pouco mais conturbado do que o passado recente, os mercados brasileiros foram pouco impactados pelas notícias locais e o que realmente pesou nos negócios foi o cenário internacional. Sendo assim, tanto o Ibovespa quanto as estratégias de renda fixa prefixada registraram perdas no período. O Ibovespa teve o pior mês desde março de 2020 com queda de10,10%. Na renda fixa, praticamente todos os vencimentos de títulos prefixados e atrelados à inflação apresentaram alta, mas nem todos registraram perdas no período. Isso ocorreu, pois com os níveis atuais de juros (acima de 12% nominal e 5% real), nem toda a alta de taxa impacta negativamente o carrego do papel, que está muito alto. Com isso, somente as estratégias de renda fixa mais longas registraram perdas (IRF-M1+ com -0,53%), o que acabou impactando o índice geral (IRF-M), que recuou 0,12%.


 

Ponto de Vista Mercer, cenário doméstico:

 

Os mercados locais sofreram com a reversão do humor internacional, mas não acreditamos que estruturalmente as coisas tenham mudado de modo definitivo. Ainda avaliamos que as taxas de juros nominais e reais estão muito altas, denotando uma situação de descontrole fiscal, o que não é nosso cenário base. Do lado da bolsa, se a economia global conseguir passar pelo período de taxas de juros mais altas sem registrar encolhimento, o humor pode melhorar e o Ibovespa deve se recuperar. Do mesmo modo que no comentário internacional, aconselhamos que não sejam feitos movimentos bruscos nas carteiras, sendo importante a calma e a resiliência para enfrentar impactos desfavoráveis de curto prazo, mais uma vez, sem abrir mão da diversificação.

Indicadores Financeiros

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Economática, B3 e Mercer


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